A Educação de Jovens e Adultos no Brasil e a Influência de Paulo Freire

Bem vindo ao Blog de discussão sobre Paulo Freire e a EJA no Brasil.

Esse blog foi criado no contexto das aulas de Temas Fundamentais das Ciências da Educação do curso de Pedagogia Noturno na UFMG no primeiro semestre de 2010, com o objetivo de compreendermos a influência desse educador nas práticas educacionais de EJA no Brasil e no uso de tecnologias como recurso didático na EJA, particularmente na região metropolitana de Belo Horizonte.

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sábado, 5 de junho de 2010

Entrevista professor da EJA


Nome: A.G.

Idade: 39 anos.

Formação acadêmica: Geografia - Licenciatura - IGC/UFMG em 1996.

Quantos anos trabalha com a EJA?
Oficialmente há 4 meses, no entanto, sempre lecionei no turno da noite (Regular Noturno) desde que comecei, há 14 anos. Nesta escola (E.M.Prof.C.C.) há 10 anos. Os estudantes sempre tiveram o mesmo perfil da EJA, só que o aprendizado se fazia dentro da lógica do Regular Noturno. A PBH autorizou a Escola oferecer a modalidade da EJA em 2010.

Qual a faixa etária dos estudantes da EJA? Dos 14 aos 70 anos.

Caracterize quem são os estudantes da EJA hoje?
Podemos destacar dois conjuntos:
O primeiro é formado por jovens estudantes (14 aos 18 anos) que são oriundos de outras escolas e que foram retidos no último ano do Ensino Fundamental em 2009. Percebo certo padrão nas estruturas familiares destes estudantes: a maioria criada pela mãe sem a participação do pai ou ainda pelos avós. A mãe quase sempre está trabalhando, pouco participando da vida escolar do estudante. Existe uma grande quantidade de pais que têm envolvimento com vícios ou com delitos. Chamou a minha atenção a grande quantidade de estudantes do sexo masculino (cerca de 80%) em relação às estudantes do sexo feminino.
O segundo é formado por estudantes que não tiveram possibilidades de estudar ou continuar a estudar por uma série de motivos: trabalho, fracasso escolar, dificuldade de acesso à escola. Há o discurso entre estes estudantes de que a formação escolar no passado não tinha importância para o que faziam no seu tempo. Hoje, com a modernidade, percebem que a escolarização é muito importante. Chamou a minha atenção a grande quantidade de estudantes do sexo feminino (cerca de 70%) em relação aos estudantes do sexo masculino.

Quais as características mais marcantes dos estudantes da EJA?
No primeiro grupo de estudantes percebo que são marcados pelo mundo moderno. São ligados à mídia, moda. São ciborgues. Transgridem o padrão cultural. Por isso entram em choque com a cultura da escola, que é muito tradicional, apesar das tentativas de mudança (Escola Plural, por exemplo). Gostam de estar na escola mas não de estar na sala de aula.
No segundo grupo de estudantes percebo que são, em sua grande maioria, migrantes do meio rural ou de pequenas cidades. Eles sempre manifestam que querem estudar para resgatar o "tempo perdido". Este tempo está associado a uma escola tradicional conteudista, moralista. Gostam da escola e da sala de aula. Quando a rotina da sala de aula é quebrada através de projetos, palestras, filmes, eles acham que "não é aula" e que estão perdendo tempo. Saliento que existe uma pequena porção de estudantes que são mais flexíveis.

Como se organiza a EJA nesta escola?
Ainda estamos construindo o Projeto Político Pedagógico. Atualmente há muita similaridade com o Ensino Regular Noturno, mas estamos refletindo novas abordagens e estudando os aspectos da EJA. A própria modalidade está sendo rediscutida no âmbito da Secretaria de Educação do município. Neste momento são sete salas: Duas para alfabetização e cinco equivalentes aos últimos anos do Ensino Fundamental. Neste último grupo atuam professores das matérias específicas. Houve uma tentativa de reenturmação dos estudantes no início do ano, mas a insatisfação foi generalizada, comprometendo até mesmo a existência do noturno. Voltamos atrás e estamos aguardando e participando das propostas que estão sendo feitas pela Secretaria da Educação.

Quais as metodologias utilizadas no processo de ensino-aprendizagem?
Principalmente aulas teóricas dos conteúdos específicos na sala de aula. No meu caso, as aulas são muito dialogadas, pois valorizo o conhecimento dos estudantes. Há, paralelamente, algumas tentativas de projetos que estão sendo desenvolvidos com pequenos grupos de estudantes: teatro, jornal impresso e resgate de auto-estima.

Que materiais, didáticos ou não, são utilizados neste processo?
Livros didáticos tradicionais, aulas teóricas, mídia (filmes, internet, jornais, revistas).

Que materiais e conhecimentos dos adultos são utilizados nas aulas?
Suas vivências orais são muito acionadas dentro das aulas teóricas. Houve, no ano de 2009, a confecção de diários individuais de cada estudante.

Como é acompanhado o processo de desenvolvimento dos estudantes?
O diálogo durante as aulas teóricas e as produções de textos são duas formas importantes nesta escola.

Quais são os processos avaliativos?
Avaliação tradicional por disciplina, avaliação multidisciplinar e principalmente os diálogos e produções de textos elaborados nas aulas.

Como é realizada a progressão dos estudantes?
Discutida anualmente durante o conselho de classe dos professores. Há uma tendência de ser semestralmente.

O que você sabe sobre a EJA no Brasil?
Todas as modalidades que atendiam os estudantes adultos tinham como proposta a "recuperação do tempo perdido". Por isso, tinham um enfoque conteudista e extremamente resumido. Atualmente há uma tendência de termos uma EJA pautada no direito do aprendizado dos estudantes, do respeito à diversidade.

Conhece algum autor que discute sobre EJA no Brasil ou em outro país? Quais as concepções desses autores?
Miguel Arroyo. Concebe a EJA como um direito do cidadão que não teve, por algum motivo, como frequentar a escola.

O que é EJA para você?
Uma modalidade de ensino que existe porque o Brasil nunca conseguiu atender à sua população com um ensino que atendesse a todos e com qualidade, sem exclusão e sem hierarquização das diferenças. Por isso existe esta modalidade: atender aos excluídos e aos discriminados. Atualmente existe muita coisa sendo produzida e colocada em prática para atender a estes estudantes. Mas são coisas muito novas. Os prórprios estudos em educação aqui na Brasil são muito recentes. Muitos desafios, muitos muros e pedras para serem transpostos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Entrevista professora da EJA

1- A professora: H

Com formação em Magistério, está aproximadamente 10 anos na EJA.
A professora desconhece qualquer autor em que possa lançar mão de suas idéias para auxiliar seu trabalho. Ao ser questionada a respeito de Paulo Freire relatou que ele não apresenta “idéias” para a EJA (relato antes da gravação).
Mas, no decorrer da entrevista percebe-se que a forma pela qual conduz seu trabalho, em muito tem a ver com Freire. Segundo seu relato, ela costuma trabalhar com palavras utilizadas pelas alunas; inclusive das palavras de uma determinada aluna que é a “contadora de história” da sala. Entende que suas “meninas” não tiveram oportunidades em tempo ideal e que agora são parceiras nessa caminhada. Disse que há uma troca de aprendizado, “todos os dias eu chego em casa e fico pensando no quanto eu aprendo com as minhas meninas!”
Ao contrário da educação bancária, sua sala de aula apresenta um clima harmônico, com bastante diálogo e dinâmica.
Ela acompanha o ritmo das senhoras que têm idades a partir de 60 anos. Algumas estão aprendendo a escrever o próprio nome, ainda.


(Publicado por Márcia Pascoal e Maria Aparecida Moura – Graduandas de Pedagogia UFMG)